Beira Paraguaçu

sexta-feira


Na Bahia – cerca de 120 km de Salvador -, às beiras do Paraguaçu, existe duas cidades separadas pela ponte D. Pedro II: São Félix à margem direita do Paraguaçu e Cachoeira à margem esquerda. Como é comum se ouvir dizer por essas cidades: o que o rio separa a ponte une.

Apesar de o rio estar um tanto poluído, é comum ver pescadores, crianças e jovens aproveitando-o. Sem falar nas pessoas que passeiam pela orla das duas cidades contemplando a paisagem. Não tem como os olhos não se encantarem. A imaginação por vezes entra em ação recriando os séculos XVIII e XIX, quando as cidades estavam no seu apogeu com a cana-de-açúcar e o fumo.

A poesia dos olhos

Dois estudantes estavam à beira do Porto, na cidade da Cachoeira, observando São Félix. Tentavam adjetivar a noite que eles estavam inseridos. Ela,classificou como uma noite Parnasiana, somente pela beleza e ele como uma noite melancólica, por estar um pouco triste. Mas o que de mais interessante que podia se ouvir foi ele dizendo: “gosto daqui pela energia, pela paisagem – principalmente pela paisagem – em que outro lugar você tem uma cidade presépio que se pode admirar do lado de cá?”



São Félix é conhecida por cidade presépio: graças a arquitetura, a imagem que se vê de Cachoeira, pela poesia que se faz nos olhos de quem admira e pelas luzes em tons de outono à noite.


É comum dizerem por essas bandas que é mais bonito observar São Félix do que Cachoeira, apesar de ser bastante bonito procurar poesia em Cachoeira pelos olhos de São Félix.

Quais as rimas que seus olhos colocariam ao se pousarem em Cachoeira?



É d’Oxum



Nestas duas cidades o sincretismo religioso é muito forte. “Reza a lenda” que a energia que envolve as duas cidades é muito intensa e, por conta disso, tudo aqui é em dobro. Dizem para não se ir ao Cemitério dos Escravos à noite. Aqui se ouve correntes sendo arrastadas e escravos andando pelas ruas. As mães-de-santo são procuradas por gente de todo o mundo e pessoas de todas as classes. Não é à toa que Cachoeira é conhecida por cidade da macumba.

Dizem, também, que essa energia potente é por causa de Oxum, o Orixá feminino das águas doces dos rios e cachoeiras. Não é por acaso que se vê oferendas e flores pelo rio.

“Nessa cidade todo mundo é d'oxum


Homem, menino, menina,mulher
 

Presente na água doce
Presente n'água salgada
E toda cidade brilha




Seja tenente ou filho de pescador
Ou importante desembargador
Se der presente é tudo uma coisa só





A força que mora n'água
Não faz distinção de cor
E toda a cidade é d'oxum”


* É d'Oxum é uma música escrita por Jerônimo.

De perto, ninguém é normal

A vida é como uma caixa de bombons:
você nunca sabe o que vai encontrar.”
(Forrest Gump, o contador de histórias)

É na rua João Vieira Lopes da cidade da Cachoeira – BA que existe uma casinha roxa cheia de histórias. Paradoxo o modo como as pessoas a encaram, o olhar mais freqüente é do preconceito:

- Isso aí é lugar de louco!

- Hospício!

Acompanhando as ofensas gritadas, pedras freqüentemente eram atiradas.

O difícil mesmo é as pessoas aceitarem as diferenças, as necessidades e as limitações de cada um. A parte engraçada é que o centro de atenção psicossocial (CAPS) veio justamente para substituir hospícios e manicômios. Está aí a nossa caixa de bombons. A casinha simpática, que fica perto do correio, se chama Ana Nery – cordialmente, apertem as mãos!

A interessante Ana Nery possui as mais variadas embalagens: atende indivíduos com transtornos mentais leves, médios e intensos. Para ter um bom desempenho o CAPS Ana conta com uma equipe profissional bastante dedicada: Simone Brandão, coordenadora - detalhe que alguns dos pacientes a chamam de mãe. Maria da Graça Teixeira, educadora física e artesã. Amanda Prata, psicóloga, 24 anos e alega que vem aprendendo muito com o emprego. Marina Andrade, também psicóloga – trabalha no ambulatório infantil - e um pouco mais nova que Amanda. Liliane Silva, uma assistente social de fala calma, que diz que no CAPS um dia nunca é igual ao outro. Tatiane Mateó, enfermeira. Luzinete, técnica de enfermagem. Amorim Peixoto, psiquiatra.

As atividades realizadas são as mais variadas: oficinas terapêuticas – artesanato, oficina geradora de renda própria, grupos terapêuticos, atendimento individual, promovem palestras, oficina medicamentosa, entre outras. Realizam também exercícios de musicoterapia e jogos de tabuleiro. Possuem uma grade flexível para atender as necessidades e exigências que vão surgindo.

O recheio dos bombons:

O que caracteriza mais fortemente cada pessoa é a experiência que esta já passou. A experiência é uma espécie de ensinamento que passa a povoar o falar e o agir, tornando o indivíduo, de certa forma, único. É graças a esses ensinamentos que a pessoa se enche por dentro garantindo um sabor único e incomparável. Como para cada bombom existe uma receita de recheio, para cada pessoa existe a experiência.

“Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz"
 (Os Mutantes)



O cara da caverna


Samuel não sabe a idade. A mãe o abandonou e por não ter para onde ir, passou a viver numa caverna. Sabe apenas que morou um “bocado de tempo” – como ele diz. Não lembra da sua vida antes da caverna, não sabe dizer se cresceu lá, nem sabe quem é sua mãe.

Samuel passou a freqüentar o CAPS depois que Mônica, a antiga coordenadora, foi buscá-lo. Segundo Simone, ele não sabia falar, aprendendo aos poucos no CAPS. Chegou machucado e com aparência realmente de homem das cavernas.

Atualmente mora no CAPS, até por não ter um lugar para ir. Samuel é bipolar, depressivo e se isola do mundo. Sem os medicamentos se torna “bicho”. A parte mais paradoxal da história dele é a educação nata. Extremamente educado e de sorriso tímido, ninguém diz que Samuel vivia na “pré-história”. Pede desculpas, agradece, passa rápido pela sala do CAPS quando está fumando para não incomodar.

Gosta de cantar e dançar. Ganha “trocados” cantando, às vezes, em bares e pontos de ônibus. Encerrou a entrevista com a música Sonhei com você, cantada por Adelino Nascimento:

“Matando a paixão recolhida
Num delírio de felicidade
Em soluços você me dizia
Amor, que saudade
E de repente em menos de um minuto
Você se transformou em vulto
E logo desapareceu.

Princesa Sara

Sara, na sua infância e adolescência, conviveu com uma mãe alcoólatra, que para sustentar o vício e a casa usava o corpo da filha. Sara tem retardo mental, agravado justamente por este período. Foi por esse tempo que engravidou de um dos muitos que se deitavam com ela. O filho mora com o pai, mas Sara engravidou de novo, de outro homem. A filha mora com ela e a avó.

A mãe de Sara, hoje, parou de beber por influência do CAPS e passou a cuidar da filha, que diz adorar as atividades que realiza na Ana Nery. A princesa fala com muito carinho da sua filha, que é uma menina que está estudando e que é muito inteligente.

O casamento de Tia


Tia freqüenta o CAPS por conta da depressão e alcoolismo, mas Tia não se considera paciente. Ela diz realizar trabalhos voluntários ali por pena, que ela não é louca.

A depressão e o alcoolismo de Tia foi por conta da morte do marido. Passou 34 anos casada, tem 72 anos e 3 anos de viúva. Ela se consola dizendo que seria pior se ele estivesse em uma cadeira de rodas e ela tendo que cuidar dele assim.

Meu marido morreu de repente. Deus me deu coragem para vesti-lo.

Morava em São Paulo com o marido, no entanto, a família foi buscá-la depois do falecimento dele, pois Tia parou de trabalhar, não saia mais de casa, se entregou a bebida e ao choro. Está melhor desde que passou a freqüentar o CAPS, diminuiu a bebida, sai de casa, é animada, vaidosa e falante.

Ainda hoje carrega as fotos do casamento na bolsa e fala com muito carinho do marido falecido.

A talentosa Glória

Glória é costureira e participa das atividades do CAPS. Adora as oficinas terapêuticas e se dedica bastante as oficinas geradoras de renda. Freqüenta a casa Ana Nery há um ano.

“Eu tenho doença mental, minha família me trouxe para cá e fui medicada, depois o psiquiatra me recomendou a terapia. Sabe, a terapia não é a base de medicamentos e me ajudou muito.”

Glória perdeu a mãe, depois teve desilusões amorosas, foi assim que começou a surgir a depressão.

Ela conta que antes de freqüentar o CAPS “era mais difícil enfrentar o problema, porque eu levava uma vida triste e chorava muito. Muito depressiva.”

Glória, além de costurar, confecciona bolsas, toalhas de prato, cozinha e é diarista. Tem uma excelente fama entre a equipe do CAPS. Todos falam dela com muito entusiasmo e carinho.

Dificuldades

Infelizmente, Ana Nery enfrenta muitos desafios. O primeiro é a falta de parcerias, a necessidade de se unir com outras instituições e com a comunidade. O segundo, é acabar com o preconceito que a sociedade vê a pessoa que possui algum problema mental, até para reposicionar e reinserir o cidadão nesta sociedade que tanto o marginaliza.

Muitos dos pacientes do Ana Nery têm condições de trabalhar, mas não conseguem emprego por conta da discriminação que sofrem.


Janaína França

Luta livre

O alcoolismo é uma doença perversa e má, que leva as pessoas à sarjeta.”
(Valter Silva)

Valter Evangelista da Silva, 79 anos, exerce há 60 anos a profissão de fotógrafo. Além dos papéis de pai e marido, integra o grupo dos Alcoólicos Anônimos Nova Esperança da cidade da Cachoeira-Bahia. Hoje, o álcool não é mais atrativo para ele.

Valter está há 20 anos sem consumir álcool. Influenciado pelo meio em que trabalhava, por estar sempre em companhia de pessoas que bebiam, acabou se deixando levar e, como ele mesmo diz, entrou cedo para esse mundo. Ele afirma que, pela falta de maturidade e cultura, as bebidas começaram a ser freqüentes na sua vida.

A vida mergulhada no álcool

“Na maioria das culturas o uso de bebidas alcoólicas é aceito em todas as festividades e comemorações. Se por um lado, é uma droga legal, as conseqüências provocadas pelo consumo abusivo e inadequado são crescentes e preocupantes. Uma dessas conseqüências é a Dependência do Álcool, doença que afeta cerca de dez por cento da população adulta, com repercussões na vida pessoal, familiar e social.” – Gika Correia*

Valter revelou que o álcool é uma droga que dá coragem e desinibe a pessoa. Garante um estímulo, uma coragem que outras drogas fornecem para cometer até assaltos. Contudo, o consumo abusivo - o “beber para dormir e acordar para beber” – leva a pessoa à doença, a dependência. Ele bebia todos os dias, aos domingos saía cedo de casa e não tinha horário para voltar, bebia antes e no intervalo do trabalho. Na verdade, qualquer momento era ideal. Passou a não ter tempo para a família e amigos, pois a bebida consumia seu tempo, corpo e alma.

“O alcoolismo é uma doença crônica, progressiva e incurável.
Você já ouviu falar de algum diabético que por estar em tratamento pode comer doces à vontade?” – Gika Correia

O fotógrafo explicou que o alcoolismo não tem cura. Que é uma doença mental, espiritual e progressiva. O ex - alcoólatra não se cura, mas se recupera e cada dia sem beber é uma nova batalha vencida. Chegou a comparar o alcoolismo com a diabetes, pois um diabético não deve comer açúcar, da mesma forma que uma pessoa em recuperação do álcool não deve beber. Revelou-nos que o alcoolismo é a segunda doença que mais mata no mundo, perdendo apenas para as doenças cardíacas.

Durante a 60º Assembléia Mundial da Saúde, em Genebra a Organização Mundial da Saúde (OMS) alegou que o consumo de álcool provoca grandes problemas de saúde pública, sendo também uma das principais causas de morte em todo mundo. Além de matar por problemas físicos – como a cirrose -, a morte por acidentes é freqüente.

Para Valter a pior droga é o álcool, pois antes de matar, ela desmoraliza o homem. O alcoólatra não é mais visto com respeito pela sociedade, passa a ser tratado como cachaceiro e vagabundo.

Recuperação e força de vontade

Valter hoje conquistou seu posto de herói. Reconstruiu sua moral frente à sociedade, família e amigos. Vence todos os dias uma guerra que começou quando era ainda jovem. Feliz em estar recuperado, conta que para vencer essa doença precisa-se, antes de tudo, ter muita força de vontade. A necessidade de querer largar o vício tem que partir da própria pessoa, a família pode influenciar para a tomada da decisão, no entanto, a pessoa tem que querer. Fala também que o grupo Nova Esperança ajuda muito os indivíduos que buscam se tratar dessa doença. Os auxílios prestados pelos próprios freqüentadores entre si inspiram força e coragem – como é o caso da terapia em grupo. Contudo, a pessoa só vai permanecer no grupo se realmente quiser a recuperação.



As escolhas


Segundo Valter, qualquer pessoa pode estar inserida em um “meio alcoólatra”, mas cada um é responsável pelas escolhas que tomar. O pai dele, por exemplo, não bebia e por isso nunca ofereceu bebida aos filhos. Ele diz que entrou nessa vida, principalmente por falta de cultura e maturidade, e que hoje é necessário que haja mais esclarecimento sobre o consumo do álcool e suas conseqüências. Deve-se ensinar a jovens e crianças sobre a “doença do álcool”. A informação sobre isso deve ser crucial. O governo, através da imprensa, está promovendo formas de conscientização, mas pode-se fazer muito mais.

Partindo da sua experiência, Valter aconselha:

“Evitem o primeiro gole.”


Janaína França

*Gilka Correia é Filósofa, Psicóloga, Especialista em Psicologia Clínica e Hospitalar, Sexóloga e Mestre em Educação.

2010

terça-feira

"Que importa o sentido se tudo vibra?"
Alice Ruiz




Disseram que o sentimento de mudança, quando se entra em novo ano, é tão perceptível pelo fato de todos estarem vibrando em desejo pelo novo momento. Porque, na verdade, o tempo continua o mesmo.

- O tempo é o mesmo!
- Mas é algo realmente maravilhoso ver as pessoas vibrando em bons desejos. Isso realmente faz diferença.
- É  linear: o tempo que devorava antes é o mesmo devorador de agora, mas não será o mesmo tempo.
- Por causa dos desejos?
- Por causa da vibração.