Luta livre

sexta-feira

O alcoolismo é uma doença perversa e má, que leva as pessoas à sarjeta.”
(Valter Silva)

Valter Evangelista da Silva, 79 anos, exerce há 60 anos a profissão de fotógrafo. Além dos papéis de pai e marido, integra o grupo dos Alcoólicos Anônimos Nova Esperança da cidade da Cachoeira-Bahia. Hoje, o álcool não é mais atrativo para ele.

Valter está há 20 anos sem consumir álcool. Influenciado pelo meio em que trabalhava, por estar sempre em companhia de pessoas que bebiam, acabou se deixando levar e, como ele mesmo diz, entrou cedo para esse mundo. Ele afirma que, pela falta de maturidade e cultura, as bebidas começaram a ser freqüentes na sua vida.

A vida mergulhada no álcool

“Na maioria das culturas o uso de bebidas alcoólicas é aceito em todas as festividades e comemorações. Se por um lado, é uma droga legal, as conseqüências provocadas pelo consumo abusivo e inadequado são crescentes e preocupantes. Uma dessas conseqüências é a Dependência do Álcool, doença que afeta cerca de dez por cento da população adulta, com repercussões na vida pessoal, familiar e social.” – Gika Correia*

Valter revelou que o álcool é uma droga que dá coragem e desinibe a pessoa. Garante um estímulo, uma coragem que outras drogas fornecem para cometer até assaltos. Contudo, o consumo abusivo - o “beber para dormir e acordar para beber” – leva a pessoa à doença, a dependência. Ele bebia todos os dias, aos domingos saía cedo de casa e não tinha horário para voltar, bebia antes e no intervalo do trabalho. Na verdade, qualquer momento era ideal. Passou a não ter tempo para a família e amigos, pois a bebida consumia seu tempo, corpo e alma.

“O alcoolismo é uma doença crônica, progressiva e incurável.
Você já ouviu falar de algum diabético que por estar em tratamento pode comer doces à vontade?” – Gika Correia

O fotógrafo explicou que o alcoolismo não tem cura. Que é uma doença mental, espiritual e progressiva. O ex - alcoólatra não se cura, mas se recupera e cada dia sem beber é uma nova batalha vencida. Chegou a comparar o alcoolismo com a diabetes, pois um diabético não deve comer açúcar, da mesma forma que uma pessoa em recuperação do álcool não deve beber. Revelou-nos que o alcoolismo é a segunda doença que mais mata no mundo, perdendo apenas para as doenças cardíacas.

Durante a 60º Assembléia Mundial da Saúde, em Genebra a Organização Mundial da Saúde (OMS) alegou que o consumo de álcool provoca grandes problemas de saúde pública, sendo também uma das principais causas de morte em todo mundo. Além de matar por problemas físicos – como a cirrose -, a morte por acidentes é freqüente.

Para Valter a pior droga é o álcool, pois antes de matar, ela desmoraliza o homem. O alcoólatra não é mais visto com respeito pela sociedade, passa a ser tratado como cachaceiro e vagabundo.

Recuperação e força de vontade

Valter hoje conquistou seu posto de herói. Reconstruiu sua moral frente à sociedade, família e amigos. Vence todos os dias uma guerra que começou quando era ainda jovem. Feliz em estar recuperado, conta que para vencer essa doença precisa-se, antes de tudo, ter muita força de vontade. A necessidade de querer largar o vício tem que partir da própria pessoa, a família pode influenciar para a tomada da decisão, no entanto, a pessoa tem que querer. Fala também que o grupo Nova Esperança ajuda muito os indivíduos que buscam se tratar dessa doença. Os auxílios prestados pelos próprios freqüentadores entre si inspiram força e coragem – como é o caso da terapia em grupo. Contudo, a pessoa só vai permanecer no grupo se realmente quiser a recuperação.



As escolhas


Segundo Valter, qualquer pessoa pode estar inserida em um “meio alcoólatra”, mas cada um é responsável pelas escolhas que tomar. O pai dele, por exemplo, não bebia e por isso nunca ofereceu bebida aos filhos. Ele diz que entrou nessa vida, principalmente por falta de cultura e maturidade, e que hoje é necessário que haja mais esclarecimento sobre o consumo do álcool e suas conseqüências. Deve-se ensinar a jovens e crianças sobre a “doença do álcool”. A informação sobre isso deve ser crucial. O governo, através da imprensa, está promovendo formas de conscientização, mas pode-se fazer muito mais.

Partindo da sua experiência, Valter aconselha:

“Evitem o primeiro gole.”


Janaína França

*Gilka Correia é Filósofa, Psicóloga, Especialista em Psicologia Clínica e Hospitalar, Sexóloga e Mestre em Educação.

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