A vida é como uma caixa de bombons:
você nunca sabe o que vai encontrar.”
(Forrest Gump, o contador de histórias)
É na rua João Vieira Lopes da cidade da Cachoeira – BA que existe uma casinha roxa cheia de histórias. Paradoxo o modo como as pessoas a encaram, o olhar mais freqüente é do preconceito:
- Isso aí é lugar de louco!
- Hospício!
Acompanhando as ofensas gritadas, pedras freqüentemente eram atiradas.
O difícil mesmo é as pessoas aceitarem as diferenças, as necessidades e as limitações de cada um. A parte engraçada é que o centro de atenção psicossocial (CAPS) veio justamente para substituir hospícios e manicômios. Está aí a nossa caixa de bombons. A casinha simpática, que fica perto do correio, se chama Ana Nery – cordialmente, apertem as mãos!
A interessante Ana Nery possui as mais variadas embalagens: atende indivíduos com transtornos mentais leves, médios e intensos. Para ter um bom desempenho o CAPS Ana conta com uma equipe profissional bastante dedicada: Simone Brandão, coordenadora - detalhe que alguns dos pacientes a chamam de mãe. Maria da Graça Teixeira, educadora física e artesã. Amanda Prata, psicóloga, 24 anos e alega que vem aprendendo muito com o emprego. Marina Andrade, também psicóloga – trabalha no ambulatório infantil - e um pouco mais nova que Amanda. Liliane Silva, uma assistente social de fala calma, que diz que no CAPS um dia nunca é igual ao outro. Tatiane Mateó, enfermeira. Luzinete, técnica de enfermagem. Amorim Peixoto, psiquiatra.
As atividades realizadas são as mais variadas: oficinas terapêuticas – artesanato, oficina geradora de renda própria, grupos terapêuticos, atendimento individual, promovem palestras, oficina medicamentosa, entre outras. Realizam também exercícios de musicoterapia e jogos de tabuleiro. Possuem uma grade flexível para atender as necessidades e exigências que vão surgindo.
O recheio dos bombons:
O que caracteriza mais fortemente cada pessoa é a experiência que esta já passou. A experiência é uma espécie de ensinamento que passa a povoar o falar e o agir, tornando o indivíduo, de certa forma, único. É graças a esses ensinamentos que a pessoa se enche por dentro garantindo um sabor único e incomparável. Como para cada bombom existe uma receita de recheio, para cada pessoa existe a experiência.
“Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz"
(Os Mutantes)
O cara da caverna
Samuel não sabe a idade. A mãe o abandonou e por não ter para onde ir, passou a viver numa caverna. Sabe apenas que morou um “bocado de tempo” – como ele diz. Não lembra da sua vida antes da caverna, não sabe dizer se cresceu lá, nem sabe quem é sua mãe.
Samuel passou a freqüentar o CAPS depois que Mônica, a antiga coordenadora, foi buscá-lo. Segundo Simone, ele não sabia falar, aprendendo aos poucos no CAPS. Chegou machucado e com aparência realmente de homem das cavernas.
Atualmente mora no CAPS, até por não ter um lugar para ir. Samuel é bipolar, depressivo e se isola do mundo. Sem os medicamentos se torna “bicho”. A parte mais paradoxal da história dele é a educação nata. Extremamente educado e de sorriso tímido, ninguém diz que Samuel vivia na “pré-história”. Pede desculpas, agradece, passa rápido pela sala do CAPS quando está fumando para não incomodar.
Gosta de cantar e dançar. Ganha “trocados” cantando, às vezes, em bares e pontos de ônibus. Encerrou a entrevista com a música Sonhei com você, cantada por Adelino Nascimento:
“Matando a paixão recolhida ”
Num delírio de felicidade
Em soluços você me dizia
Amor, que saudade
E de repente em menos de um minuto
Você se transformou em vulto
E logo desapareceu.
Princesa Sara
Sara, na sua infância e adolescência, conviveu com uma mãe alcoólatra, que para sustentar o vício e a casa usava o corpo da filha. Sara tem retardo mental, agravado justamente por este período. Foi por esse tempo que engravidou de um dos muitos que se deitavam com ela. O filho mora com o pai, mas Sara engravidou de novo, de outro homem. A filha mora com ela e a avó.
A mãe de Sara, hoje, parou de beber por influência do CAPS e passou a cuidar da filha, que diz adorar as atividades que realiza na Ana Nery. A princesa fala com muito carinho da sua filha, que é uma menina que está estudando e que é muito inteligente.
O casamento de Tia
Tia freqüenta o CAPS por conta da depressão e alcoolismo, mas Tia não se considera paciente. Ela diz realizar trabalhos voluntários ali por pena, que ela não é louca.
A depressão e o alcoolismo de Tia foi por conta da morte do marido. Passou 34 anos casada, tem 72 anos e 3 anos de viúva. Ela se consola dizendo que seria pior se ele estivesse em uma cadeira de rodas e ela tendo que cuidar dele assim.
“Meu marido morreu de repente. Deus me deu coragem para vesti-lo.”
Morava em São Paulo com o marido, no entanto, a família foi buscá-la depois do falecimento dele, pois Tia parou de trabalhar, não saia mais de casa, se entregou a bebida e ao choro. Está melhor desde que passou a freqüentar o CAPS, diminuiu a bebida, sai de casa, é animada, vaidosa e falante.
Ainda hoje carrega as fotos do casamento na bolsa e fala com muito carinho do marido falecido.
A talentosa Glória
Glória é costureira e participa das atividades do CAPS. Adora as oficinas terapêuticas e se dedica bastante as oficinas geradoras de renda. Freqüenta a casa Ana Nery há um ano.
“Eu tenho doença mental, minha família me trouxe para cá e fui medicada, depois o psiquiatra me recomendou a terapia. Sabe, a terapia não é a base de medicamentos e me ajudou muito.”
Glória perdeu a mãe, depois teve desilusões amorosas, foi assim que começou a surgir a depressão.
Ela conta que antes de freqüentar o CAPS “era mais difícil enfrentar o problema, porque eu levava uma vida triste e chorava muito. Muito depressiva.”
Glória, além de costurar, confecciona bolsas, toalhas de prato, cozinha e é diarista. Tem uma excelente fama entre a equipe do CAPS. Todos falam dela com muito entusiasmo e carinho.
Dificuldades
Infelizmente, Ana Nery enfrenta muitos desafios. O primeiro é a falta de parcerias, a necessidade de se unir com outras instituições e com a comunidade. O segundo, é acabar com o preconceito que a sociedade vê a pessoa que possui algum problema mental, até para reposicionar e reinserir o cidadão nesta sociedade que tanto o marginaliza.
Muitos dos pacientes do Ana Nery têm condições de trabalhar, mas não conseguem emprego por conta da discriminação que sofrem.
Janaína França